O apagão reduziu o nível de conectividade no Irã para cerca de 1% de seu padrão, de acordo com o NetBlocks, site que monitora o funcionamento da internet ao redor do mundo. O país tem 85 milhões de habitantes.
Até mesmo a internet via satélite da Starlink, que costuma continuar funcionando em situações como essa, foi afetada, segundo Amir Rashidi, diretor do Miaan Group, entidade sem fins lucrativos que atua para defender direitos digitais no Irã (saiba mais abaixo).
Para atingir o serviço, o regime iraniano está usando jammers, bloqueadores de sinais que ficam perto de antenas da Starlink, disse Rashidi.
Níveis de conectividade de internet no Irã entre 5 e 13 janeiro — Foto: Reprodução/NetBlocks
E nem mesmo a VPN, que cria uma espécie de túnel dentro da internet para “camuflar” a conexão entre dispositivos, tem resolvido. A Proton VPN, que fornece esse tipo de serviço, disse que as sessões a partir do Irã estão diminuindo porque “a internet foi completamente desligada”.
Ligações internacionais também tinham sido bloqueadas, mas foram liberadas nesta terça-feira (13), segundo a agência Associated Press.
“Apesar de algumas chamadas telefônicas já estarem sendo completadas, não existe uma forma segura de comunicação, e o público em geral continua isolado do mundo exterior”, disse o NetBlocks.
Por que o bloqueio contra a Starlink surpreendeu?
Países podem bloquear determinados sites e aplicativos ou mesmo o acesso total à internet em seus territórios. Para isso, obrigam operadoras de internet fixa e móvel a interromperem o sinal enviado por cabos de fibra ótica e antenas, por exemplo.
Mas bloquear a internet via satélite é um pouco mais complicado, já que as empresas que fornecem esse serviço não precisam estar sediadas no país que emitiu a ordem, diz Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks.
A navegação do usuário que chega em um satélite é enviada de volta para bases terrestres que, então, continuam a comunicação por fibra ótica e podem estar em outros países.
“Essa infraestrutura não pode estar longe do usuário. Mas, como o Irã não é um país continental como o Brasil, empresas de satélite conseguem prover o acesso à internet sem bases terrestres no território iraniano”, afirma Ayub.
O jamming é uma técnica que consiste em “gerar interferência nas mesmas frequências que os satélites e as antenas dos usuários emitem para embaralhar o sinal”, explica.
“Isso exige o emprego de muitas antenas de alta potência espalhadas pelo território”, afirma. “O êxito iraniano demonstra que o governo de Teerã investiu em pesquisa e desenvolvimento para conter o uso de satélites de baixa órbita para acesso à internet”.
Qual é o histórico do Irã com a internet?
Esta é a terceira vez que o Irã ordena um bloqueio geral de internet, informou a AP.
A primeira aconteceu em 2019 quando manifestantes tomaram as ruas por conta de um aumento nos preços da gasolina. A segunda ocorreu em 2022, em meio aos protestos após a morte de Mahsa Amini, que havia sido presa por supostamente não usar o véu islâmico de forma adequada.
A internet da Starlink foi uma das principais alternativas para manter a comunicação em 2022 e, agora, o serviço é ainda mais popular no Irã, apesar de não ter sido autorizado por lá. Por isso, o uso das antenas da empresa de Elon Musk é considerado ilegal no país.
Antena da Starlink — Foto: Divulgação/SpaceX
A estimativa é de que dezenas de milhares de antenas da Starlink estejam no Irã. Parte delas estava sendo usada para divulgar vídeos e fotos sobre os protestos.
Desde quinta-feira, houve uma perda de cerca de 30% dos pacotes de dados enviados por dispositivos da Starlink, informou à AP Amir Rashidi, da Miaan Group. E, em algumas áreas, a perda chega a 80%.
A União Internacional de Telecomunicações (UIT), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), pediu para o Irã interromper a interferência no sinal de internet via satélite.


