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    Brancos de classe média atacam cotistas porque perderam privilégio de ser medíocres, diz escritor pioneiro das cotas

    Augusto Fernandes e Renato Souza do R7 em BrasiliaDe Augusto Fernandes e Renato Souza do R7 em Brasilia23 de novembro de 2024Nenhum comentário13 minutos lidos
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    A repercussão dessas imagens ocorre menos de um mês após o lançamento do novo livro de Jeferson Tenório, De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras, 2024).

    O romance que mergulha na experiência de um jovem negro que entra na universidade pública através do sistema de cotas.

    O livro apresenta a história de Joaquim, um homem de 24 anos da periferia de Porto Alegre, com sentimentos conflituosos ao entrar em um mundo novo, branco e elitista.

    Para o autor, o episódio dos jogos universitários exemplifica um ressentimento de uma classe média que tem herança escravagista.

    “Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico”, diz o escritor.

    “Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve.”

    Tenório é vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021 com O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020), livro com mais de 200 mil exemplares vendidos que explora as relações raciais no Brasil.

    A obra que conta a história de Pedro, um jovem negro que reconta a história de seu pai após seu assassinato por policiais, entrou na lista Programa Nacional do Livro Didático.

    No entanto, três estados, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, pediram o recolhimento de exemplares na rede de ensino. Nas redes sociais, o autor classificou o episódio como “censura”.

    Ele relata a experiência de ser o primeiro estudante a concluir uma graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) por cotas.

    “Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram”, recorda.

    Confira a entrevista abaixo.

    BBC News Brasil – Falamos muito nos impactos econômicos da ascensão social. Mas para uma pessoa negra que está ascendendo socialmente, entrando numa universidade, por exemplo, quais são os impactos do ponto de vista psicológico e social dessa ascensão?

    Jeferson Tenório – Esses são espaços historicamente marcados pela exclusão. Ao ingressar em um ambiente considerado para poucos, os alunos negros de periferia e de escolas públicas começam a enfrentar diversos conflitos.

    O primeiro é a luta pela permanência. Na universidade, o aluno cotista enfrenta obstáculos que seus colegas, em geral, não enfrentam.

    Meu livro aborda os primeiros cotistas. Naquela época, não havia redes de acolhimento, coletivos negros, movimentos nos diretórios acadêmicos, ou bolsas de estudo e pesquisa. Tudo era extremamente precário em termos de apoio e acolhimento.

    Depois desse choque de realidade, o aluno cotista costuma vivenciar uma solidão. Em um primeiro momento, ele sente vergonha e até medo de dizer que é cotista.

    Essa vergonha está ligada ao discurso de desvalorização, que questiona a capacidade desses estudantes, e ao medo de ser tratado de forma diferente por professores ou sofrer retaliações.

    Um terceiro estágio surge quando o aluno cotista começa a se apropriar do ambiente acadêmico, mas também acaba sendo cooptado por ele. Nesse ponto, ele pode deixar de reconhecer as pessoas e os espaços de onde veio. Ele não consegue mais se identificar com o ambiente da periferia, nem enxergar seus antigos amigos como pares.

    Isso pode levar este estudante a adotar comportamentos refratários ao lugar onde cresceu, criando uma sensação de estar dividido entre dois mundos, quase como se tivesse traído suas origens.

    Meu livro explora essa questão: até que ponto esses alunos cotistas precisam ser aceitos, e qual é o preço de buscar aceitação em um ambiente tão branco, burguês e elitista?

    BBC News Brasil – Já se passaram mais de dez anos da implementação das cotas e hoje, como você disse, já temos uma rede maior de apoio, por exemplo, nas universidades. Mas este ano vimos episódios como insultos a alunos cotistas ou mesmo o suicídio de um aluno bolsista de um colégio de elite em São Paulo. Por que esse ambiente continua tão hostil?

    Tenório – É um ambiente hostil, porque é a natureza da universidade. É um ambiente competitivo, frio, anti afetuoso. É um lugar em que se privilegia muito mais a questão da razão. Como se não houvesse espaço para outro tipo de relação com o conhecimento.

    Este caso recente aconteceu nos jogos universitários, que sabemos que têm um histórico de gritos misóginos, preconceituosos já há algum tempo. Esse ambiente esportivo também é quase como se fosse uma autorização para dizer e fazer qualquer coisa.

    Também são alunos que muitas vezes ainda são calouros que ainda não fizeram uma discussão a partir de pressupostos teóricos. Ou seja, ainda não teve essa experiência e ainda vem com essa bagagem preconceituosa e racistas.

    Mas existe um embate também com alunos que passam a conviver com alunos cotistas, que tem a ver também com uma herança escravagista.

    Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico.

    É um ressentimento de uma branquitude e medo da perda de um espaço que é desigual. E um desejo de uma manutenção dessa desigualdade, que se demonstra a partir de um desses marcadores sociais.

    Como disseram alunos de medicina em 2022, também em um evento esportivo: “Sou playboy, não tenho culpa que seu pai é motoboy”. Ou dizer que é pobre e cotista, como nesse episódio recente.

    É uma forma de desvalorizar o que, na verdade, é um direito e uma conquista. Há essa inversão de valores justamente por esse medo e receio de uma perda de espaço.

    BBC News Brasil – A raiz deste ressentimento da classe média é a mudança promovida pelas cotas?

    Tenório – O filme Que Horas Ela Volta? (2015) explicita bem o início disso. Como a filha da empregada passa num dos vestibulares mais concorridos para arquitetura, e o filho da patroa, que tem tudo, não consegue passar?

    Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve. É um momento também dessa branquitude ser educada pela presença de cotistas.

    Essa ideia de que é a universidade precisa ser diversa, ela tem que acontecer na prática. As cotas propiciam que haja justamente esses contatos. Essa convivência que faz bem para todo mundo.

    Inclusive, para essa classe burguesa branca, que muitas vezes é alienada, muitas vezes não se dá conta, ou seja, não tem uma postura ética em relação ao outro, não se preocupa com o outro.

    As cotas vão muito além de beneficiar pessoas negras e pobres, mas também ajudam nessa educação da branquitude.

    BBC News Brasil – É inegável que houve uma efervescência no debate racial no país. Mas esse avanço alcançou as pessoas brancas? Elas também se engajaram em reflexões sobre a branquitude? Onde você enxerga que o debate racial avançou?

    Tenório – Tivemos sim um avanço nas discussões raciais na universidade. É muito difícil hoje em dia que um professor, seja qual for a disciplina, em algum momento não passa por isso por esses temas, mesmo nos núcleos mais duros, como física, matemática, medicina.

    Nesse sentido, houve um avanço e há quase uma naturalização já desse discurso na universidade. O que acontece é que a universidade não dá conta de como esse discurso chega na sociedade. Nisso, avançamos pouco.

    O debate na universidade é muito efervescente, muito vivo, mas quando vai para a sociedade, para o grande público, fizemos pouca coisa. Para usar uma expressão da moda, estamos numa bolha.

    Quem se importa que um estudante tenha dito aquelas coisas, quem acha que é que o que ele disse é racista, preconceituoso, é uma bolha. O grande público não está preocupado com isso.

    Tenório levanta como bandeira a formação de novos leitores — Foto: Divulgação

    BBC News Brasil – Você é de uma geração que lutou pelas cotas e também foi beneficiada por elas. Como foi sua experiência pessoal nesses ambientes?

    Tenório – Entrei na universidade pública em 2004, no Bacharelado em Letras, sem as cotas. Na época, o sistema ainda não existia na UFRGS.

    Não era exatamente o curso que eu queria, mas não consegui trocar. Trabalhei muito durante esse período e continuei no curso. Estudava para ser tradutor, mas o que eu realmente queria era ser professor.

    Em 2007, começou o movimento na UFRGS pela implementação das cotas. Foi uma discussão intensa, com ocupações da reitoria.

    Em 2008, as cotas foram finalmente implantadas, e fiz o vestibular novamente. Passei para o curso que queria: Licenciatura em Letras.

    Me formei em 2010, aproveitando as disciplinas já cursadas. Com isso, me tornei o primeiro cotista negro a concluir a graduação na UFRGS.

    Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram.

    Logo após me formar, fui contratado por uma escola particular em Porto Alegre. Durante a entrevista, mencionei que era cotista, e a diretora respondeu: “É exatamente esse perfil que queremos para nossa escola. Estamos trabalhando com questões antirracistas e queremos um professor que tenha essa experiência”.

    Nada do que disseram sobre as cotas se confirmou. Pelo contrário, minha trajetória como cotista foi um diferencial positivo.

    BBC News Brasil – Era também um ambiente hostil para você?

    Tenório – A universidade sempre foi um espaço hostil, antes e depois das cotas. Nunca foi acolhedora, especialmente para quem vem de onde viemos — das periferias, com outra bagagem e outra experiência de vida.

    Demorei muito para perceber as violências que sofria dentro desse ambiente. Elas não eram apenas explícitas, mas também estavam nos discursos de alguns professores, que não legitimavam determinados conteúdos ou autores.

    Por exemplo, só descobri que Machado de Assis era negro durante o mestrado, em 2013. Foi nessa mesma época que li Carolina Maria de Jesus pela primeira vez.

    Essa invisibilidade é uma violência. A universidade oferece um tipo de conhecimento como se fosse universal e único, desconsiderando outros saberes.

    A minha experiência não foi tão dura quanto a do Joaquim, personagem do meu livro, porque, quando entrei pelas cotas, já conhecia minimamente os mecanismos da universidade. Já tinha alguma experiência acadêmica, o que ajudou a diminuir o impacto inicial. Ainda assim, foi uma vivência hostil.

    BBC News Brasil – No seu livro, você usa a expressão “eterno estrangeiro”, que remete a ideia de um não lugar. Hoje, como escritor negro, sente isso?

    Tenório – Hoje, compreendo melhor minha trajetória, e isso me tranquiliza. Entendi que nossas origens são, em grande parte, inventadas ou imaginadas. Não temos uma origem documentada. Não sei quem foi meu tataravô ou de qual país africano vieram meus ancestrais.

    Isso nos obriga a inventar uma história, criar uma ideia de origem que, na realidade, não existe. Essa compreensão me levou a aceitar que temos uma “raiz movente”. É como se tivéssemos raízes, mas elas estão em constante movimento.

    Quando entendi isso, percebi que me apegar a uma origem fixa não faria de mim uma pessoa melhor. Precisamos construir e reconhecer nossas histórias, mesmo sabendo que muitas delas são imaginadas.

    Isso também me ajudou a lidar com o conhecimento ocidental, que é branco e dominante. Decidi aproveitar o que ele tem de melhor e criticar o que há de pior. Continuo fazendo isso.

    Em De Onde Eles Vêm, isso é evidente no Joaquim: ele lê autores brancos e europeus consagrados, mas também os questiona. E, ao mesmo tempo, busca se aproximar de uma literatura produzida por autores negros. Esse movimento, para mim, é uma forma de retorno às origens, mesmo reconhecendo que essas origens são, em parte, fruto de uma construção imaginada.

    BBC News Brasil – Na terça-feira (19/11), uma pesquisa mostrou que, pela primeira vez, a maioria das pessoas no Brasil não são leitoras. Como você recebe esse dado?

    Tenório – É um dado assustador, sem dúvida. E, se compararmos com outros países, a situação é ainda mais alarmante. Na França, por exemplo, a média é de 22 ou 23 livros por pessoa por ano. Aqui no Brasil, estamos em torno de 2,1 livros por ano. É um número muito baixo.

    Por outro lado, precisamos refletir sobre o que significa ler. Será que a leitura se restringe a livros? A música, por exemplo, não pode ser considerada também uma forma de letramento?

    O rap, o hip hop, o slam… Estou citando a música porque ela foi uma parte importante da minha formação como leitor. Na minha infância e adolescência, não tinha livros por perto, mas a música foi meu primeiro letramento estético. Ela também me educou sentimentalmente. E, pensando nos adolescentes de hoje, quando estão nas redes sociais, o que estão fazendo? Apenas consumindo vídeos ou também escrevendo e lendo?

    Talvez ainda tenhamos a ideia de um “leitor ideal”, aquele que senta sozinho com um livro, mas há outras formas de letramento acontecendo. Hoje, temos podcasts, que são um sucesso no Brasil, e audiolivros, que, embora menos populares, também têm um público. A leitura não é só com os olhos; pode ser também com os ouvidos.

    Apesar desse cenário, não acredito que seja “terra arrasada”. Claro que me preocupo, porque sou apaixonado por livros, pelo objeto em si. Por isso, meu trabalho é como o de uma formiguinha: tento formar leitores, especialmente de livros.

    BBC News Brasil – Seu novo livro se estrutura em capítulos curtos e uma linguagem fluida. Hoje vivemos nesta disputa pela atenção no ambiente digital, textos cada vez mais curtos… Isso te influenciou para atrair novos leitores?

    Tenório – Na verdade, a inspiração veio do Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, ele usa capítulos curtos, muitas vezes com apenas metade de uma página. Isso tinha a ver com a época, já que os textos eram publicados em folhetins e precisavam ser rápidos para atrair o leitor do jornal.

    Se pensarmos bem, a lógica de hoje não é tão diferente. A rapidez está presente, mas ampliada, como no TikTok, onde temos apenas segundos para captar a atenção. Mais do que a estrutura dos capítulos, minha estratégia é criar uma linguagem acessível, sem barreiras linguísticas.

    Evito palavras muito sofisticadas ou inversões gramaticais complicadas, buscando uma fluidez que atraia até mesmo quem nunca leu um livro inteiro. Sempre escrevo pensando no que gostaria de ler quando era jovem e não tinha tantas oportunidades.

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